sexta-feira, 17 de junho de 2016

EDITORIAL: A CULTURA DO ESTUPRO NO BRASIL

O som do quarto era de risadas de deboche, piadas e clima de diversão. Mais de trinta homens observavam uma menina de dezesseis anos deitada na cama, desacordada, machucada e suja de sangue. Alguns deles abriam as pernas da garota e mostravam o quanto ela estava ferida e sangrando e narravam o que haviam feito com ela. Selfies foram tiradas ao lado de suas partes íntimas e as imagens jogadas na rede.

Detalhes da história ainda não foram bem divulgados porque a vítima, de tão abalada, mal consegue falar. Mas o cenário é uma comunidade do Rio de Janeiro e a personagem principal desse filme de horror é uma jovem de 16 anos, menor de idade, que era assídua frequentadora de bailes funk desde os 13 anos.

Segundo as primeiras informações, supostamente a garota saiu de um baile funk e foi dormir na casa de um rapaz o qual se relacionavam há três anos. A moça foi dopada e acordou apenas no dia seguinte, quando TRINTA E TRÊS (!) homens a estupravam e a espancavam.

A garota foi encontrada por um agente comunitário que a ajudou, ela ficou internada na UTI de um hospital carioca, estava transtornada, passou por inúmeros exames, tomou diversos remédios, saiu de lá amparada pela família que desta vez ficou igualmente abalada, mas pouco fez para preservar a menor do pior.

Ela recebeu alta médica, mas aquelas agressões não foram apenas físicas, também foram morais e psicológicas e para isso não existe medicação ou tratamento que cure dores tão fortes e machucados tão profundos. Essa menina carregará traumas eternos causados por esse pesadelo.

Tão assustador quanto esse estupro coletivo foi a reação de alguns internautas que tiveram acesso ao conteúdo, incansavelmente compartilhado na internet. De vítima a jovem passou a ser vilã diante de muitos comentários como: “Se estivesse em casa, não aconteceria isso”, “Também, foi ao baile funk...”, ou “Fica usando roupa curta, queria o que?”.

O fato foi tão consternador que trouxe ampla discussão, onde opiniões repercutiram ao longo da semana, evidenciou o quanto a população está despreparada sobre o tema “cultura do estupro” que existe e está escancarada na sociedade.

A verdade é que independente do contexto, a culpa do estupro nunca é da vítima e absolutamente nada justifica a violência sofrida por essa garota, porem atitudes dessa carioca em questão a fez ser uma potencial vítima que entrou na estatística onde a cada onze minutos acontece um estupro, independente do motivo, onde a próxima vítima pode ser você, sua mãe, sua irmã ou sua filha!

A cultura do estupro amedronta as mulheres a alimenta o medo feminino de passar em ruas mal iluminadas, de entrar em transporte público lotado, de ficar sozinha na presença de homens, de andar de noite na rua, de sair desacompanhada, ou seja, de viver livremente.

A cultura do estupro diz que as mulheres precisam se prevenir de homens que não se socializaram e não conseguem se conter ao ver o sexo oposto, sem atacar verbalmente ou fisicamente. Há quem diga que essa cultura também protege o estuprador e culpa a vítima. A cultura do estupro intimida, limita, envergonha e mata. Essa cultura está tão enraizada, que no caso do Rio de Janeiro, entre 33 homens, nenhum, se opôs a violentar a moça, todos eram adeptos a cultura do estupro.

Que fique claro para os que ainda não entenderam; estupro não é sexo, é violência e covardia. A maioria dos estupros não são denunciados e quem é mulher sabe o quanto essa violência é presente. A sociedade não pode silenciar, e tem que combater a “cultura do estupro”, afinal, quem cala, consente.

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