terça-feira, 26 de janeiro de 2016

EDITORIAL: OS RUMOS DO COMÉRCIO EXTERIOR

O rumo que tomou o comércio exterior brasileiro acendeu uma luz amarela no painel da gestão macroeconômica a cargo do Ministério da Fazenda, e tornou-se assunto obrigatório na pauta de discussão sobre as estratégias que o país deve adotar para melhorar os resultados das contas com o resto do mundo. O fato essencial dessa questão diz respeito ao saldo das transações correntes (exportações menos importações de bens e serviços). Nos oito anos do governo Lula, o saldo foi superavitário em cinco anos, mas a partir de 2008 a situação foi piorando e continua a deteriorar-se de forma crescente.
Segundo dados do Banco Central (BC), em 2008 o déficit foi de US$ 28,2 bilhões, passando em 2010 para US$ 47,3 bilhões, e em 2013 atingiu US$ 81,4 bilhões. Há especialistas prevendo que, a continuar nessa velocidade, o déficit chegará aos US$ 100 bilhões anuais dentro de alguns anos. Vale notar que tal situação tem causas externas e não é culpa de nenhum governante especificamente, ainda que uma ou outra medida já poderia ter sido adotada para corrigir a rota do saldo negativo antes de se chegar a um ponto de maior gravidade.
De 2002 até 2010, anos do governo Lula, os termos de troca foram favoráveis ao Brasil. Ou seja, os preços dos produtos exportados pelo país cresceram a taxas expressivas, enquanto os preços de grande parte dos produtos importados caíram. Tomando o índice de preços de exportações em 1997 na base 100, em 2002 estava em 77 e em 2010 havia atingido 174. Isso significa que aquilo que era exportado por US$ 100 em 1997 havia caído para US$ 77 quando Lula assumiu, mas as elevações de preços internacionais foram de tal monta que, em 2010, o preço da exportação era de US$ 174.
Essa alta expressiva, causada basicamente pelo efeito do aumento do consumo na China, melhorou substancialmente o balanço do Brasil com o exterior e permitiu ao país acumular reservas de US$ 370 bilhões. O bom volume de reservas internacionais é um colchão que contribui para que, apesar dos déficits referidos, a situação atual das contas externas brasileiras não seja um grave problema. A preocupação está na tendência para os próximos anos. Se os déficits continuarem, as reservas serão corroídas até o ponto em que o país não escapará de tomar medidas duras, entre elas a possibilidade de uma forte desaceleração na atividade econômica interna como meio de reduzir as importações.
A reversão dos déficits em transações correntes viria se os preços dos produtos vendidos ao exterior voltassem a subir. Porém, contar com essa hipótese é um salto no escuro, pois um dos principais atores nessa peça é a China, país que ajudou o Brasil no passado e agora contribui com o agravamento da situação em face da redução do consumo interno e da diminuição da taxa de crescimento de seu Produto Interno Bruto (PIB). Embora o Brasil tenha feito a coisa certa ao diversificar seus mercados, conquistando fatias relevantes do mercado chinês e do Oriente Médio, é justamente a desaceleração dessas regiões que está criando dificuldades para as contas brasileiras.
Diante da atual realidade, o comércio exterior deve pautar-se pelo aprofundamento da diversificação de mercados, pois quanto mais mercados mundiais o Brasil conquistar, menos vulnerável o país ficará às crises regionais. Um exemplo vem da União Europeia. Essa região caiu em crise profunda e seus efeitos sobre o Brasil só não foram piores porque a pauta de exportação brasileira não dependia tanto dessa região. Entretanto, neste momento, as expectativas de melhoria na zona do euro são maiores do que as esperanças depositadas no retorno do crescimento do mercado chinês, embora a qualquer momento a China possa surpreender, voltar a crescer e aumentar as compras de produtos brasileiros.
A diversificação de mercados pela conquista de novas regiões é saudável, mas o país não pode ficar apenas na dependência dessa estratégia. É necessário descobrir qual a melhor política cambial nessa situação, quais medidas podem ser tomadas para substituir importações e como absorver tecnologias externas para modernizar o parque industrial nacional.

No curto prazo, um país pode importar mais do que exporta em bens e serviços, mas no longo prazo essa situação é insustentável e o país não escapa de tomar medidas duras para fazer os ajustes. O Brasil já viu esse filme nos anos 70 e 80. É melhor não pagar para ver de novo.

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